sábado, 23 de fevereiro de 2013

Mundo líquido! Alain Tourraine: Um futuro a reinventar


Crise

Um futuro a reinventar

04 outubro 2010 La Repubblica Rome
Sisse Brimberg & Cotton Coulson/Keenpress/Getty

Na América e na Europa, a crise económica cada vez se assemelha mais a uma crise existencial. Há soluções para construir um outro futuro, nota o sociólogo francês Alain Touraine, mas os políticos não sabem aproveitá-las.



As três crises. Esta fórmula parece artificial, mas não é. Por trás da crise financeira, estalou uma crise monetária e económica que revelou ser uma crise política. E os nossos países europeus mostraram-se incapazes de pensar e de organizar o seu próprio futuro, facto que constitui uma terceira crise.
A primeira, a mais visível, foi a crise financeira que culminou em setembro de 2008 com o fecho do banco Lehman Brothers em Nova Iorque. Esta crise foi mais grave nos EUA e na Grã-Bretanha, mas também na Europa continental. Em contrapartida, depressa outros países se restabeleceram e chegaram mesmo a atingir elevados níveis de crescimento.
Houve quem julgasse a crise acabada e a retoma assegurada, quando, no início de 2010, estalou uma crise, sobretudo europeia, orçamental e económica. Tudo começou com um imprevisto: a Grécia estava à beira da falência. Descobrimos então a gravidade dos nossos males: a enormidade dos défices orçamentais, o rápido crescimento da dívida pública, a incapacidade quase generalizada de fazer descer os elevados números do desemprego.
Esta crise é, acima de tudo, uma crise política. É uma crise que manifesta a impotência dos países europeus em gerir a sua economia, em diminuir a despesa pública, em fazer crescer as receitas fiscais e, sobretudo, em relançar o crescimento sem o qual não haverá qualquer recuperação orçamental.

Um modelo ocidental de conquista e imponente

A terceira crise que assola o ocidente é a ausência de um projeto civilizacional, facto que ainda se compreende menos. Durante séculos, o ocidente europeu concentrou todos os seus recursos nas mãos de uma elite dirigente de monarcas absolutos e, mais tarde, do grande capital.
Conseguiu igualmente conquistar, em poucos séculos, uma grande parte do mundo. Mas este modelo de conquista assenta sobre duas situações perigosas. A primeira é o facto de toda a sociedade estar brutalmente submetida ao poder dos dirigentes. Dos súbditos de sua majestade aos operários fabris e aos colonizados, às mulheres e às crianças, todas as faixas da população ficaram sujeitas a formas de dominação extrema. O modelo ocidental foi, simultânea e indissoluvelmente, um modelo de conquista e um modelo imponente.
A sua outra fraqueza foi ter servido para a formação de nações que estiveram em guerra durante séculos, até que a Europa do século XX se lançou em duas guerras mundiais e numa vaga de regimes totalitários. As lutas entre nações europeias só terminaram com a hegemonia americana e a criação de uma União Europeia assente no enfraquecimento dos Estados. O sistema social europeu foi-se enfraquecendo mais lentamente.

Uma Europa sem projeto de vida

Os povos derrubaram monarcas, os assalariados conquistaram direitos sociais, as colónias libertaram-se, as mulheres conquistaram direitos, mesmo que não tenham conseguido acabar com a desigualdade que as vitima. Mas depois da Belle époque, dos anos de democracia social da segunda metade do século XX, a Europa, libertada dos seus maiores sofrimentos e das suas maiores loucuras, encontra-se sem modelo de desenvolvimento, sem projeto de vida.
São da Europa as grandes vozes que se fizeram ouvir nestes últimos séculos, mas hoje a Europa está silenciosa, vazia, sobretudo por não ter conseguido, até à data, substituir o seu antigo modelo de modernização. Mas isso não é impossível e já conhecemos os grandes temas que deveriam ser prioritários para o próximo século: os ecologistas convenceram-nos a conciliar os direitos da economia com os direitos do ambiente; os movimentos culturais revelaram-nos que não basta conquistar o governo da maioria e que também é preciso respeitar os direitos das minorias.
As mulheres, de uma forma mais privada do que pública, começaram a construir uma sociedade cujo principal objetivo é reconciliar os opostos e privilegiar a integração interior em detrimento da conquista exterior. Estes grandes projetos, no entanto, que deveriam imperiosamente transformar-se em projetos políticos, têm mais apoio da opinião pública do que dos governos.

A impotência política e intelectual: a causa principal da crise

Embora seja possível inventar um futuro, já não temos instrumentos políticos e, sobretudo, intelectuais para sairmos das crises cujas consequências mais negativas temos tentado apenas atenuar. O capital financeiro é o único setor da vida económica que se restabeleceu depressa e bem. Simultaneamente, a desigualdade social continua a aumentar, a economia de produção saiu da Europa e o debate político continua o mesmo em todos os países. Não podemos dizer que a nossa impotência política e intelectual seja uma consequência da crise. Ela é a sua causa principal. Este facto indica claramente onde se encontram as nossas prioridades.
Não existe uma solução para a crise económica sem uma solução para a crise política e cultural. É urgente o restabelecimento político e, sobretudo, o renascimento intelectual e cultural. A Bélgica e a Holanda foram assolados por um populismo chauvinista e xenófobo. A vida política em Itália e em França está arruinada e tem de ser totalmente reconstruída. Perante o papel dominante dos EUA, carecemos da vitória de Barack Obama sobre um partido republicano reacionário e pouco inteligente.
Foram os melhores economistas que nos explicaram a importância primordial das soluções sociais e políticas para ultrapassar a crise económica, mas os políticos dão mostras de ainda não terem entendido. Não podemos continuar a avançar devagarinho, pois nem sequer sabemos se estamos a avançar ou a recuar. Precisamos urgentemente de imaginar, pensar e construir o nosso futuro, afastando a névoa e o silêncio que nos impede de descobrir os instrumentos políticos indispensáveis à construção desse futuro.
Fonte: artigo retirado de

Contemporâneas! Vida de ponteiros



Relógios tem ponteiros, setas que ordenam nossos tempos. Na Idade Média ficavam na Igreja da comunidade e marcavam somente as horas, não os minutos, pois aquelas estavam associadas aos rituais católicos, o que iria mudar drasticamente  quando a revolução industrial começou a se disseminar em vários locais da Europa, com consequências locais e, mais adiante, com repercussões globais, de acordo com as tecnologias disponíveis na época. O tempo passou a ser dedicado, preferencialmente, à produção, além de o lazer ter sido devidamente demonizado (especialmente o lazer do trabalhador, bem entendido). Assim, os ponteiros dos relógios passaram a ditar o ritmo das atividades humanas, embora o ludismo não tenha concordado pacificamente. Por outro lado, foi estabelecido um fluxo de trabalho contínuo, no qual o tempo passou a ser rigorosamente fatiado entre o trabalho, o descanso para o retorno ao trabalho e as férias – quando possíveis. Logo, os ponteiros dos relógios são as flechas que nos dizem o que devemos fazer e quando devemos fazer – compromissos, ordens, especulações, trabalho, lazer, tudo aponta para nós. Mesmo o prazer, se assim quisermos, atende uma estética que nos coordena desde que Ford inventou a linha de produção.
No filme O Exterminador do Futuro 2 (1), T 1000 transforma seu dedo indicador em um punhal mortal que trespassa a cabeça uma de suas vítimas, uma inocente dona de casa. Não deixa de ser curioso que quando buscamos saber as horas, os relógios analógicos apontem contra nossos corpos suas lâminas de ponteiros. Somos uma civilização dura: não faz muito tempo que nos demos conta de que o mundo e seus fenômenos funcionam em rede e que, efetivamente, o todo não pode  ser entendido, a não ser equivocadamente, como a adição de suas partes constituintes. Contudo, apostamos teimosamente no poder lógico da reta, embora saibamos que ela não existe, de per si, na natureza. Retas são invenções humanas, mas não prestamos muita atenção no que o mundo tenta nos mostrar, ocupados que estamos em submetê-lo aos nossos interesses.
Somos especialistas, medimos, tornamos a medir, baseamos nossas vidas em dinheiro, consumo e em volatilidade. Esquecemos, por exemplo, que matérias primas são  igualmente voláteis e, muitas vezes, não renováveis. Por agirmos assim, atendemos a parâmetros que não prestam atenção aos entornos, aos limites, às consequências  Desperdiçamos energia. Vinte por cento da humanidade consome oitenta por cento da energia produzida pelo planeta, mas tratamos de tal assunto como se fossemos assistir a um desfile de Gauthier.
Rompemos cadeias alimentares e ecossistemas e pretendemos que não haja consequências  focamos nossos esforços quanto as concessões de direitos, mas somos muitas vezes precários interpretadores dos deveres. Para obter lucros, tornamos áreas agricultáveis praticamente estéreis à outras espécies, porque estimulamos a monocultura e deixamos de explorar outras culturas voltadas diretamente para a alimentação. Destruímos matas nativas e não as reflorestamos na mesma proporção.  Os exemplos se multiplicam e, assim como os ponteiros dos relógios, apontamos laminas contra nossa maior casa, nosso planeta. Obstinadamente nos aferramos a uma visão menor de mundo, e os modelos políticos igualmente não tem demonstrado capacidade e feedback para lidar com tais problemas, envolvidos que se encontram com suas próprias idiossincrasias. É um mundo sem perguntas, apenas seguidor de modelos. Genericamente o papel de predadores históricos e sociais sempre nos caiu muito bem.
 Se observarmos, contudo, veremos já sinais de que as mudanças começam a trazer resultados práticos; de um certo modo é como se uma nova consciência se tivesse instalando lentamente. A consciência de que não podemos continuar a tratar as situações de modo isolado, nem de que podemos permitir visões parcialistas em termos uma noção do todo que está envolvido. Esses movimentos de rede acontecem especialmente nos países nórdicos, nos quais o nível de qualidade de vida já é bastante evoluído, e a renda per capital é distribuída de forma mais equitativa. Por outro lado, as organizações não governamentais cada vez mais buscam soluções que se dão através de projetos que necessariamente não precisam do capital estatal – e, portanto, da submissão direta ou indireta aos governos dos diversos países. Isso configura um substrato alentador, e permite que tenhamos possibilidades claras de um desenvolvimento auto-sustentável. Assim como os processos de globalização, essas entidades igualmente agem em nível mundial. Alguns exemplos conhecidos são o Greenpeace, o WWF, os Médicos sem Fronteiras, além dos tradicionais, como a Cruz Vermelha e assim por diante. O mesmo movimento socialmente garantidor e ecologicamente marcado ocorre e se multiplica em países que são tradicionalmente poluidores, como os Estados Unidos. A China, contudo, embora seja uma das maiores emissoras de gases poluentes do mundo, tem o escudo do crescimento econômico e um regime político que não permite maiores voos em termos de organizações civis.
De todo modo, se nos acostumamos com as lâminas, talvez estejamos vivendo um momento em que finalmente nos acordamos para a realidade , e ela nos aponta para um futuro incerto e dramático se persistirmos pensando políticas internacionais como se estivéssemos no início do século XVII. Embora tenhamos possibilidade de nos filiarmos ou nos refugiarmos em vários movimentos e ideologias políticas, isso se revela insuficiente. Se os grandes dinossauros ainda permanecem íntegros na economia mundial, temos de aprender a conviver com eles e insistirmos no sentido de melhorar a vida de milhões de pessoas. E isso tem ocorrido através de três eixos principais: uma educação ética, a organização da sociedade civil e instrumentos públicos que cerceiem as possibilidades reais do exercício da estupidez institucional. É para esses três eixos que devemos estender nossas redes de atenção plena.

(1) O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991),  original Terminator 2: Judgment Day é um filme cujo diretor é John Cameron, continuação de The Terminator, de 1984.  O andróide citado é no post é T 1000, que tem a missão de matar John Connor. T 100o é de metal líquido, podendo assumir multivariadas formas.  

Contos! Fácil, muito tranquilo


.38 Revolver Target por gahdjun


Uns dias atrás, andei matando uma pessoa, mas, no fundo, foi um ato de caridade, afinal a criatura tinha completado 90 anos, e, pra ser bem sincero, ninguém sabia o que fazer com ela. Então um parente distante me contratou e eu fui lá e executei a velhota; sim, era uma mulher, daquelas quase carecas, de cabelo bem branco, mas isso é alta bobagem, pois o que interessa – sempre – é o serviço bem feito. E foi, até porque a mesma sofreu muito pouco, bastou gastar uma bala de revolver, dessas de trinta e oito e – zapt! – foi acabado todo o sofrido sofrimento.
Uma semana depois, recebi o pagamento e fiquei feliz, embora mil e trezentos reais não dê pra quase nada. Bom mesmo é matar gente importante, mas o trabalho, aí, muda de figura, pois é preciso muita campana, muito preparo, muita observação e, cá prá nós, nem sempre recompensa. Bom mesmo são esses trabalhinhos fáceis, eventuais, meio free-lancer.
A gente tem pouco estresse, vai lá, faz um servicinho bem feito e pronto – nada melhor do que dormir descansado, sem dever nada a ninguém. É encomendar uma morte boa e fim, o resto… só maravilha.
hILTON

Contos! A pitonisa



O homem, após seu banho ritual, com a preocupação a roer sua alma, finalmente colocou-se em posição para perguntar à Pitonisa. Com gravidade, perguntou, mas não obteve resposta. Ele não acreditou no silêncio, mas o tempo havia terminado e com ele as possibilidades de obter o que desejava. De repente, havia um peso em sua alma, e um coração que se negava a aceitar o que acontecera. O momento já passara, e tudo parecia estar caminhando rápido demais.
Já na estrada que o afastava de Delfos, seus pensamentos não o abandonavam. Afinal, não tinha sido digno de receber uma resposta? Afinal, o que ocorrera, buscando uma alternativa que pudesse aplacar a sua angústia. Quanto tempo, quantos sacrifícios e angústias o acompanhariam até que houvesse uma nova oportunidade ou o Destino encaminhasse o que o levava em turbilhão até Delfos?
A cidade sagrada já estava há pelo menos três horas de distância quando a estrada tornou-se um manto noturno, sem que ele percebesse, absorto que estava em suas inquietações. De súbito um vento congelante alcançou-o e com ele a Morte. Entendeu, por fim, porque a resposta não viera, mas nada poderia fazer, nenhuma alternativa o alcançaria.  Àquela altura, a insensível  Átropos já havia cortado o fio de sua vida.
HILTON BESNOS
Os gregos davam o nome de Pitonisas a todas as mulheres que tinham a profissão de adivinhas, porque o deus da adivinhação, Apolo, era cognominado de Pítio, quer por haver matado a serpente-dragão Píton, quer por ter estabelecido o seu oráculo em Delfos, cidade primitivamente chamada Pito.
A Pitonisa era a sacerdotisa do oráculo de Delfos. Sentada sobre o trípode ou cadeira alta com três pés, acima do abismo hiante de onde brotavam as exalações proféticas; ela divulgava seus oráculos uma vez por ano, no começo da primavera. Mas antes de se sentar na trípode, a Pitonisa se banhava na fonte de Castália, jejuava três dias, mascava folha de loureiro, e com religioso recolhimento, cumpria várias cerimônias. Terminados esses preâmbulos, Apolo prevenia a sua chegada ao Templo que tremia até os alicerces. Então a Pítia era pelos sacerdotes conduzida à trípode. Era sempre em transportes frenéticos que ela desempenhava sua função: dava gritos, uivos e parecia possuída pelo deus. Assim que desvendava o oráculo caía em uma espécie de transe, que algumas vezes durava muitos dias. A princípio existiu uma única Pitonisa, mas com o tempo, o grande número de consultas que eram regularmente feitas, exigiu que se criassem ou que se recrutassem novas Pitonisas. Para atingir a grande honra de ser sacerdotisa, isto é, Pitonisa, era necessário satisfazer algumas condições consideradas essenciais, como ser pura, haver recebido uma educação simples e jamais haver conhecido o luxo, vestindo-se com recato. De preferência as Pitonisas eram recrutadas entre as famílias pobres, porque, acreditavam os gregos que a riqueza era incompatível com a elevada missão da Pitonisa.
No caso, estamos diante não de uma decisão judicial, mas de manifestação de uma pitonisa“.

Contos! Herói


ODA by George Bezhanishvili
Herói
Sou um herói, e isso me basta. Não necessito nem quero ser um super-herói. Sou filho de Deuses, mas igualmente sou humano, e por isso penso que ser um super-herói é um exagero, quase um sacrilégio. O que é ser um super-herói, senão ser um personagem que não pertence a lugar algum? Meus pais são Deuses, meus vícios são humanos, e parte do que sou é herança divina.
Muitos dizem que sou um mito, que não sou real, porque não me concebem dentro da herança que receberam muito depois que eu conhecesse o mundo inferior e superior. Destruíram nossas verdades, mentiram sobre as vestais, e parece que nada que não seja do Triunvirato merece respeito, como se ele próprio não fosse um mito.
De todo modo, Cronos, o Senhor dos Tempos, nos aponta as portas do mundo. É preciso esperar um pouco mais, o suficiente para que retornemos ao coração dos homens e às suas habitações.

Contos! A palavra dita e seguida


NO MUNDO HAVIA QUATRO PADRÕES DE TRIBOS, todas coloridas: as dos amarelos, as dos brancos, as dos vermelhos, as dos negros, de tal modo que elas se distribuíam muito distantes umas das outras, o que justificava um certo espanto quando amarelos encontrassem brancos, brancos encontrassem vermelhos, negros encontrassem brancos, amarelos encontrassem…. e assim por diante.

Como tais encontros não se davam todos os dias, quem encontrava alguém de outra tribo ainda acrescentava algumas características às cores e também às qualidades de umas e outras cores e assim foram surgindo os brancos invasores, os negros estranhos, os amarelos china, os vermelhos índios, e mais algumas cores que eram sempre exóticas: os fúcsia, os verdes escuros, os brancos-gelo, os negros-azulados e assim por diante, de tal modo que, depois de um determinado tempo, as qualidades e as cores se casaram entre si.

Não importava muito se as cores em si e as qualidades associadas às primeiras fossem verdadeiras, desde que os membros de cada uma das tribos pudesse jogar seu gamão ou assistir às lutas de MMA quando quisessem. No entanto, em todas as tribos, independentemente das cores, surgiram, mais cedo ou mais tarde os Predestinados, que eram aqueles que tinham encontrado A Palavra.

A Palavra, dita assim e não dito assim, a palavra, eram completamente diferentes. A Palavra queria dizer mais, conferia mais poder àqueles que eventualmente se aproximavam de quem As Pronunciava. Como era necessário proteger A Palavra, conforme os Predestinados diziam, nada mais sensato do que submeter as demais tribos à Palavra. Os Predestinados sempre foram espertos, umas raposas. Enquanto todos brigavam, discutiam, iam para as guerras e sacrificavam inocentes para proteger A Palavra, os Predestinados simplesmente continuavam Dizendo-A.

No entanto, sabiam os Predestinados, que A Palavra não existia assim, sozinha, então foram buscar histórias reais ou inventadas, comentadas ou acreditadas, e utilizaram o Exemplo e A Palavra para difundir suas idéias. Com isso, logo houve seguidores. Os seguidores levavam a Palavra para as demais tribos, não importando qual a cor que tivessem e quais os costumes que tivessem incorporado. A Palavra devia Ser Dita e Seguida. Nem que fosse a Ferro e Fogo.

Realmente alguns foram literalmente queimados pelos seguidores d'A Palavra. Carbonizados, para ser mais exato.

O interessante é que A Palavra se nutria de palavras pacificadoras: vida, solidariedade, amor, paciência, confraternização, fraternidade, e outras que sempre apontavam para o que de melhor em humanidade as tribos de cores diferentes poderiam produzir. Mesmo assim, matavam, estupravam, incendiavam, guerreavam, sacrificavam, baniam, expulsavam, violentavam, violavam, estupidificavam e emburreciam, segundo os seguidores para consagrar as primeiras.

Os seguidores passaram então, como ocorre diuturnamente a interpretar, a comentar, a refazer o que A Palavra lhes significava. A emenda ficou (bem) pior do que o texto inicial. Os seguidores, com letra minúscula, eram os que mais acreditavam na palavra: lhes dissessem qualquer bobagem ou assunto mais importante, não importava. Somente existia verdade na Palavra.

Uma vez que a Palavra não houvesse assegurado, transmitido, dito explicitamente  explicado, o demais não importava aos seguidores, pois esses simplesmente dividiam o mundo em duas partes: o que era dito pelos Predestinados e pela Palavra correspondia a tudo que estivesse certo, adequado, natural, feito para não ser tocado, imantado, incensado, respeitado, e o que não fosse dito pelos Predestinados e pela Palavra correspondia ao que deveria ser subjugado, pois era ignominioso, infiel, triste, melancólico, falso, mequetrefe, inspirado no erro, na abominação. De certo modo, os seguidores eram os mestres da simplificação, pois ou enalteciam ou decepavam. Simples assim.

Nesses tempos, até as bactérias e as briófitas passaram a se espantar.

Mas, aí, as tribos já tinham maiores contatos, e ficou difícil acreditarem somente em Uma Palavra. A Palavra transformou-se em Palavras, o que, na prática, significou que mais pessoas foram literalmente carbonizadas, houve mais guerras e mais inocentes foram sacrificados. Um belo dia, as Palavras resolveram igualmente brigar entre si, e mais gente continuou morrendo, senão pela Palavra, mas pelo Poder que ela representava.

Até hoje há pessoas que brigam pela Palavra, que se resume, no entanto, a uma só: Arrogância.

Contos! Cinco quadras


Andar cinco quadras para entrar no vácuo, no vazio. Muito distante, como se fosse um oceano, um Himalaia a ser escalado, uma selva a ser desbravada, um tempo a ser consumido, um leque de possibilidades, mas apenas uma certeza. Cinco quadras e muito a ser dito, possivelmente bem mais do que eu gostaria e bem menos do que o necessário; meia quadra já havia sido consumida. Andava lentamente, porque os passos pesavam como chumbo. Temas, assuntos, detalhes, marchas, contramarchas mas, sobretudo, culpa. A tríade de olhos verdes: culpa, responsabilidade e erro. Sempre, todas elas palavras muito densas. 

A culpa, nossa orientadora mor, moedora emérita de nossos sonhos, a culpa é a proteladora do prazer individual, o motivo pelo qual abrimos mão de nossos desejos, por mais eles nos atormentem. Colocar em um mesmo cadinho a culpa, a responsabilidade e o erro e, daí, sorvê-los cuidadosamente, em doses quase homeopáticas mas constantes ao longo de nossa vida é o caminho mais certo para a mortificação.

Essa foi uma das lições que aprendi ao andar cinco quadras. Durante minha vida, que cada vez mais se encontra à disposição do tempo, como um caleidoscópio, nada me pareceu tão evidente. Foi como se um  insight me atingisse; eu, que havia tanto me dedicado à tríade, iria repartir, compartilhar minha descoberta com quem? Quem haveria de sentar-se comigo, de ouvir-me, de prestar atenção ao que eu poderia dizer? Quem teria a inegável paciência de me escutar, entre o meu vício tabagista e os vapores de um vinho cabernet?

(Estranho, nesse momento de angústia, me lembrar do sabor de um cabernet, quase como se estivesse em Quaraí, no rigor do inverno com meu pai, comemorando o resultado de uma charqueada. Me transportei, alma, sentidos, de maneira tão rápida que me pareceu ter ouvido a risada clara de meu pai, junto às discrições de minha mãe, enquanto o vento varria tudo, especialmente as consciências políticas, nos deixando sem assunto mas, de certo modo, felizes. Nesses momentos, nada melhor que um cabernet, o pinhão sendo assado no forno à lenha...)

Faltavam duas quadras. Novamente a tríade me envolveu. Para mim, tinha olhos verdes, olhos que, segundo aprendi, são inconfiáveis, traidores... no entanto, Clarice tinha olhos verdes, e me foi fiel desde que a conheci, mesmo quando soube o que eu deliberadamente tentava ocultar, e em um dezesseis de julho, finalmente cansou, extenuada de minhas tolices.

" Vou partir, e não me verás mais", foi o que disse, e assim foi feito, se foram os olhos que me encantavam, os olhos que desperdicei, o que tinha de melhor e que consegui arrancar de mim mesmo. 

Uma quadra. O vento varria tudo, o frio ficava por ali, condensando o brilho das lâmpadas a vapor, acompanhadas nostalgicamente por alguns vaga-lumes  insetos ordinários, e pelo silêncio. Acho que quando morrer, ingressarei em uma câmara absolutamente silente, até que a loucura plena me arraste. Tenho comigo que morrer é não escutar o algaravio das crianças, o berro do boi, os murmúrios dos amantes, os barulhos do mundo; morrer é ser engolfado pelo silêncio.

Acabaram-se as quadras, as cinco. Bati à porta, e alguém me atendeu, para que eu pudesse contemplar,  em um caixão, em uma mortalha, os olhos castanhos de minha filha que me esperavam, mortos, translúcidos, olhos de peixe, sem esperança. Quando entrei, algo deixou de existir. Desolado, suando a transpiração úmida da escuridão, entrei. "Escute!", pensei mas não disse "Alguém gritou algo na rua!", mas não entendi o que havia sido gritado. Parei um pouco dentro da casa, meus pés já haviam abandonado completamente a velha soleira. Quando dei por conta, o mundo sumiu.

Contos! Mente


Várias poesias, textos completos, fragmentos de ficção foram brotando em minha alma, em meus desejos, e assim me inundaram a boca, o cérebro, a mente, as mãos, os polegares de palavras, de sentidos, de sentimentos, de signos, de revelações, de mistérios e de proposições, até que minha língua afiada percebeu que seria impossível colocar todo aquele caos dentro de qualquer mínima tentativa de organização. Os parênteses, as vírgulas, as pontuações, as geografias do corpo, da ilusão, das lembranças, das expectativas, das metáforas e das sinonímias passaram a pesar sob meus ombros de tal modo que sequer dali poderia brotar um mero adjetivo. Livros e receitas trespassavam as minhas orelhas, opúsculos me sufocavam e minhas unhas eram nada mais do que recipientes vorazes de notas de rodapé. Intolerante, da minha boca e da minha garganta eram expulsos estoicismos, meros discursos. Caí.

Acordei, não sei se dias ou horas depois. Em minha frente, o farmacêutico indicava mezinhas milagrosas; também, com ar adequadamente compungido, ali estava o padre Rogério, que, tendo vindo para oficiar minha extrema unção, espantou-se quando retornei à consciência e, para não perder a viagem, iniciou uma desbragada litania. Do farmacêutico bebi a mezinha e suas recomendações de anilina e do pároco sorvi, ávido, suas prédicas, mas nem uma nem outra melhoraram meu estado de espírito. 

Dentro de mim, palavras, expressões, frases inteiras explodiam sem cessar, conforme percebes claramente, ó pá, talvez amanhã, depois do café as coisas melhorem, teleféricos, tenaz, televisão, telefone, te amo e a trágica letra "t", assim mesmo, com asteriscos, agora estou me perdendo em tal profusão de maios, abris e junhos e de meias no aparador central do apartamento, profusão, fim de manhã, indivíduo inválido conexo, dor, dor, dor, pleistoceno  nada a declarar, óbvio, atadura, estou me derretendo, me preste socorro . agora, depois não haverá mais tempo, pois na noite o delírio virá. 

Be happy, tradução Seja feliz, ironia, descanso. Em minhas pernas o átrio expulsa o que ali descabe, a coceira arde, é hora de, finalmente encontrar a palavra mãe, origem, amor, amor, amor, música, Brahms, Beethowen, Bach, talvez Bee Gees e Buarque, do Chico, finalmente, translúcido e nu  como cenário último e essencia da paixão sou em tudo e em ti, agora, paz.

Os que me assistiram durante o evento, informaram que ora eu me debatia, insano, ora ficava quieto, como se estivesse levemente dormitando; alguns dos poucos que tiveram a coragem suficiente da proximidade disseram que em determinado instante eu entoei o Cântico dos cânticos  de David e que não cheguei a fazer feio em Adeste Fidelis. 

Decerto o espírito de John Francis Wade me suportou nos momentos mais tocantes e sensíveis. No entanto, novamente e subitamente transformado em deformidades, monstro obtuso de mim mesmo, minha situação se tornara absolutamente previsível e, portanto, conflituosa, difícil. Aqui e ali, continuavam suspirando odes enquanto, dos meus cotovelos, anacolutos forçavam passagens.

Seios não são seios, isso é um engano, berravam meus olhos; seios são espaços urdidos entre o que é e o que não é. O desejo evoca fantoches, fantasias, e na verdade luminosa do nosso erotismo evocamos, sim, mamas, mas mamas, especialmente para as mulheres talvez não seja uma palavra mais doce, mais benfazeja, palavra talvez entendida rude, mamas, e que terminam por afastar os entretenimentos buscados da volúpia. Seios complementam-se mais, buscam-se mais, estão eles ali, um ao lado do outro, em geometria espacial, cunhas esféricas, expectantes, sedutores e seduzidos e, aqui, a metáfora dos seios nórdicos, europeus, claros, alvos à luz da lua se concretiza. Mais sabe o poeta sobre as mamas do que ornitologista a respeito dos animais vertebrados, que põe ovos e possuem penas, asas, bicos córneos e ossos pneumáticos. Sabem mais os poetas e apaixonados a respeito das curvas, da textura, do tamanho e das formas mamários do que sabe o estudioso acerca dos turdus, dos falconiformes e dos scolopacidae.

Pura metafísica comandava meus sonhos desvalidos e minhas conjecturas de pernoite em hotéis de baixa categoria, entornos discutíveis do ponto de vista econômico e moral e serviços talvez um pouco mais adequados do que o desprezível. Sapos e gazelas e ancas, e sapotis me estremeciam a glote. Densa como sopa de amêndoas  minha febre me consumia. 

Sentia-me como um sopro que, expelido, em seguida perdia a força, consumindo-me a mim próprio, antes mesmo de existir. Se peco, o faço com consciência plena e não me arrependo nem dos solilóquios nem dos advérbios que apertam meu peito como tenazes.

Após longo tempo ressuscitei, meio homem, meio fênix   em estado de vísceras. Matutando, busquei minha decifração, meu contínuo abecedário, como uma esfinge sem pudores. Meus pelos se eriçavam, mas me desfiz dos mesmos como um ancião se despe de suas vergonhas. Lento, mas de forma decidida, fui assomando à superfície, abandonando meus cântaros de limiares entre consciência e inconsciência. Quando, por fim, relinchos me disseram que era hora de retornar de tantos assombrosos sonhos, bebi meu sangue como se fosse um ritual de total hedonismo e, inchado de propósitos e meações, finalmente vim à lume. Lá fora, o sol prateava.

Ali, onde acordei, havia um teto, quatro paredes, uma porta aberta e a minha respiração. Suei e tornei a suar. Minha garganta me levava, incontinenti, ao deserto de Atacama e minha pele parecia descamar como se eu fora um réptil. Ah, Deus, eu devia ter desistido ali. No entanto, me veio, como lâmina a palavra de Pessoa, e se viver realmente não era preciso, havia a ânsia da navegação. A crise se prolongou muito tempo, o suficiente para que me desejassem extinto, folha jogada pelo vento. Assaltantes de minha família decidiram que eu estaria melhor em um sanatório para doentes mentais, que estava pronto para assomar às grosserias totais da loucura.

No entanto, a canalha tratou de precaver-se e o mais maligno de todos eles pensou no que poderia lucrar com a minha insensata e estúpida alienação. O rei dos canalhas então alcovitou uma ação no Judiciário para, por um lado obter a sentença que me declararia insano, tolo, retardado, néscio, desvalido, incapaz, beócio, tomado de acessos de incontida fúria e palermice para, a partir de tal empresa, buscar ainda ser o meu tutor, o meu reitor, aquele que vivia a tornar-se o bam-bam-bam das minhas riquezas, o finório a amealhar o que, em boa hora, meu pai e minha mãe me deixaram e que, na condição de herdeiro universal havia sido - e bem - herdado.

Sim, além de ser jovem e cheio de predicados e substantivos, também sou detentor, possuidor de fortuna que varia desde papéis negociáveis em bolsas de valores, até prédios e campanários a perder de vista. Meu pai e minha amantíssima mãe, que Deus os tenha no Reino de Sua Glória e Misericordiosa Paixão Amém Amém e Amém, foram muito generosos com este perdido que eu havia me tornado. Tive pais que me legaram uma infância festejada, uma adolescência regada a viagens aos exteriores e colégios judiciosos e de bons reconhecimentos sociais. 

Durante o breve tempo em que decorrem as primeiras aventuras, folguedos amorosos e mesmo além de tão interessante passagem terrena, tive, provei, lambuzei-me de prazeres os mais indizíveis, os mais luxuosos, os mais luxuriosos, os mais indecentes dentro do que cabia no estreito limite da decência burguesa. Vivi e desfrutei o que me foi possível em tão ternos anos de fortuna, e mesmo assim, não se esgotaram os recursos que me sustentavam nesse mundo tão materialista, tão absolutamente negocial
.
Quando, por fim, a inescrupulosa ação interditória ingressou em juízo, capitaneada por um advogado sem moral e  ajustada previamente em conchavos que evoluíram da corrupção até ganhar as alcovas de vosso meritíssimo, além dos compadrios e influências necessárias, julho iniciava entre chuvas e frios enregelantes, como se pudesse anunciar os previsíveis resultados do pleito. 

Aranhas teciam desde nunca a rede e a tessitura de fios de seda; tigres se acoitavam e avançavam lentamente, parando aqui e ali, farejando-me como eu realmente me dispunha, apetitosa mas imprevisível presa; exércitos de escreventes, escriturários, membros flácidos do ministério público escreviam em laudas o que tinha sido previamente acordado, fazendo o que desde tempos imemoriais se faz, a soldo de tramoias.  

Desse modo, utilizando o judiciário com letra minúscula, meus parentes, todos eles, assemelhavam-se a carrascos que preparavam laboriosamente a lamina que executaria o espólio de meus bens, enquanto eu me quedava, entre parvo e sonambulo, entre marés de conjunções adversativas e espasmos de pretéritos imperfeitos.

Penso, não sei se me interessa nessa quadra da vida saber se aquinhoei tantos préstimos graças ao tanto que gastava ou em razão de meus talentos inegáveis para as artes; de todo modo, além de ilusões, de desencantos, de febres, de olhares úmidos de luxo, igualmente tais sinais foram acompanhados de miradas da mais pura inveja, mesmo do escárnio, e do mais puro ressentimento que se possa espantosa e espantadamente encontrar, e tudo ali, em minha volta, nos jantares e almoços de finais de semana, na convivência diária com o subreptício, com a triste ignomínia que infecta parentes tão insuportavelmente maus. Inveja, deusa de todas as intrigas, rainha das misérias humanas, mestra da mentira, como pudestes tanto me apunhalar sem que me desse conta, pelo menos para tentar uma vã proteção? 

Enquanto mais exercitava a boa vida e a exposição que o talento e a fortuna tão bem conduzem, mais se acendiam e radicalizavam as caldeiras do ódio e da tristeza que, vindo de minhas próprias redes parentais buscavam me destruir e acabar de vez com o muito que ainda poderia ser usufruído. De todo modo, quando mais precisei estar atento, minhas armas e braçadas se expunham nuas e desemparadas, no aguardo do desfecho previsível e inalterável.

Eis-me aqui, neste palco de luzes bruxuleantes e arquitetura escassa, cercado de um vácuo opressor. No lusco-fusco da noite, se algo tremia era a escuridão. Meus espectadores, as pessoas com rostos e gestos comedidos, parcimoniosos, quase rituais, apenas me observavam. Não via, então, olhos úmidos de ansiedade, nem de antecipada luxúria ante minha provável nudez. Deixei, então, que minhas roupas se desatassem e depois, que minhas outras nudezas acompanhassem meu último passo de tango, minha última e livre vontade e fui ficando ali mesmo no palco minimalista, acarinhando minha medula e as faces ocultas e assombrosas da minha pele. 

Ao restar, então em essência, deitei o que restava de mim em um pequeno catre. Estava tão ensimesmado e concentrado em minhas litanias que, se algum dos poucos que acederam ao teatro mambembe e pobre, quase um nada, comentou algo, ou manifestou opinião contrária àquela performance errática, sequer posso afirmar que me veio à consciência. Desprendido do que era, do que sou, do que fui, ingressei lentamente em um mundo que se dissolvia entre nesgas de palavras e sentidos disformes, como se tudo que me viesse à mente e me tocasse de alguma forma o corpo, lembrasse uma densa sopa de castanhas, enquanto um cheiro muito doce de amêndoas me invadia os sentidos.

Quase sem me reconhecer, ou a qualquer dos meus pedaços, músicas músicas músicas às dezenas brotaram em meus ouvidos, eu escutava de uma forma tão visceral que era como se tivesse me tornado uma nota, um si-bemol  um poço um eco do que eu me tornara, então elas vinham para mim e me tomavam e me dominavam e me convertiam em cordas luminosas  harmônicas, harmonia, história e letras 

Once upon a time you dressed so fine You threw the bums a dime in your prime, didn't you? People'd call, say, "Beware doll, you're bound to fall" You thought they were all kiddin' you You used to laugh about Everybody that was hangin' out Now you don't talk so loud Now you don't seem so proud About having to be scrounging for your next meal. How does it feel How does it feel To be without a home Like a complete unknown Like a rolling stone? You've gone to the finest school all right, Miss Lonely But you know you only used to get juiced in it And nobody has ever taught you how to live on the street And now you find out you're gonna have to get used to it You said you'd never compromise With the mystery tramp, but now you realize He's not selling any alibis As you stare into the vacuum of his eyes And ask him do you want to make a deal? How does it feel How does it feel To be on your own With no direction home Like a complete unknown Like a rolling stone? You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns When they all did tricks for you You never understood that it ain't no good You shouldn't let other people get your kicks for you You used to ride on the chrome horse with your diplomat Who carried on his shoulder a Siamese cat Ain't it hard when you discover that He really wasn't where it's at After he took from you everything he could steal. How does it feel How does it feel To be on your own With no direction home Like a complete unknown Like a rolling stone? Princess on the steeple and all the pretty people They're drinkin', thinkin' that they got it made Exchanging all kinds of precious gifts and things But you'd better lift your diamond ring, you'd better pawn it babe You used to be so amused At Napoleon in rags and the language that he used Go to him now, he calls you, you can't refuse When you got nothing, you got nothing to lose You're invisible now, you got no secrets to conceal. How does it feel How does it feel To be on your own With no direction home Like a complete unknown Like a rolling stone?

Lá, em algum lugar que não ali, talvez tão mais adiante que jamais pudera suspeitar ouvi, de alguma planície, de algum planalto, de uma casa tão antiga quanto o mundo, de algum catre desconhecido me alcançou, límpido e cristalino, ácido e rutilante, o grito desconhecido mas, de algum modo íntimo: o choro e mais que ele, o sentido da certeza me acudiu ao ver nascer a menina ainda transida de espanto que, rasgando, rascava o ventre de minha avó. 

Ao ver-me ante tal espanto compreendi, de vez por todas que recém testemunhara o sagrado. Ainda mais distante uma camponesa pastoreava ovelhas, o bucólico rural se acordava no ritmo e no ciclo de um enorme e singularmente belo caleidoscópio. O tempo, as estações, as luzes, tudo parecia um tanto quanto irreal, como se efetivamente fossemos, tudo e todos, uma tela de Van Gogh.

Cronicas! Champanha brüt


O que tenho para te dar são as minhas mãos, um pouco da minha vitalidade ou o que possa fazer dela. Pertenço a ti, mas, antes, à minha solidão, esta bem mais companheira e acessível do que jamais pensei. Trago em mim os votos de uma não castidade que se confunde com alguns recorrentes traços de perversão; preciso, talvez, converter-me a alguma religião para que, então, possas me associar com algo de metafísico, inerente à condição humana. No mínimo à submissão, o que já é algo mais palatável. No fundo os amores são assim, um tanto de submissão e outro de submeter. Enfim, é deste modo que o amor se estrutura, adicionado com muito de paixão, de desejo e de algo, talvez um perfume de belíssima qualidade mas pouca fixidez, de amor romântico. Meu realismo talvez decrete, em ti, o sentimento de expulsão. Sejamos honestos, quero te provar

Concebido e saciado o desejo, racionalizada a homeostase da carne, satisfeitos nossos precários metabolismos, poderemos, só então, pensar em buscar nossas harmonias conjuntas. De todo modo, me perdoa se te digo assim o que outros não falaram, antes procuraram te enlaçar sobre os dramas, paixões e misérias de um amor de sal, açúcar e água. Prefiro ser quem sou, e se a volúpia de ti me vem, não entendo porque não expressá-la. Palavras sagradas, redondas, que se imiscuem, que são retratos mais fiéis do que somos, e que pretendemos esconder com camadas e camadas de comiseração e de uma pudícia que se torna desleal a nós mesmos.

Isso, talvez seja isso: nos acostumamos a pedrar, a consumir, a descartar, a não termos compromissos maiores senão com as nossas próprias vontades. Construímos pontes que dali a pouco se desvanecem, como quadras de sonhos inteiros, mas não nos atemos a perguntar o porquê dos fatos. Apenas estamos ali, em um trem cujas estações desconhecemos. Apreciamos a paisagem, mas igualmente interferimos na mesma, na medida em que a narramos para nossas idiossincrasias e para quem, de dentro, não vê o de fora. Prosseguimos, trocando nossos discursos e identidades com uma facilidade que chega ao constrangimento. Somos pontos, somos deuses de nós mesmos, e por isso as aproximações que fazemos são todas como um arco de cosseno.

Talvez por tudo isso eu deva ser menos coerente do que querias, do que desejavas. Sou e faço parte da incoerência. E, no entanto, a despeito de tanto, te desejo, como talvez um pouco mais que um tênis Reebok. Sei, me descartarás também, mas tudo ao seu tempo. Te proponho fruirmos agora, para, somente após pagarmos os preços de nossos mútuos abandonos. 

De todo, há ali um seio, uma coxa, um par de pernas, um torso masculino, de todo há ali um balé bonito, de corpos que se fundem, que se confundem, os nossos, e todas as salivas, e suores, e desejos que se misturam como uma boa safra de champanha brüt.  Somos agonizantemente belos, e a beleza, talvez nossa maior carta de proposições, nos salva de qualquer depressão, de qualquer amargura ou mesmo do sofrimento. Quando minhas mãos te acarinharem, teu ventre se arqueará como uma sinfonia.

Somos belos, somos jovens, somos descartáveis. Somos o que somos e somente uma luz de estranha tessitura nos salvará. Luz que é onda, onda que é efeito, miragem é o que apontamos logo ali, enquanto nossas bocas, sedentas, mergulham na escuridão.

Contos! Alianças e amor


Após vinte e cinco anos, João decidiu terminar seu casamento quando uma voz feminina lhe falou, ao telefone, que sabia "das aventuras de sua mulher Beatriz". Ora, após tanto tempo de convívio, e considerando os últimos quatro anos, ele sabia que nada mais restava das promessas e da vida amorosa com que ambos haviam iniciado a vida em comum. Mais do que romance, havia tão-só lembranças, algumas felizes, outras nem tanto e que se foram perdendo no tempo, mas não muito mais que isso. Não tinham filhos, e Beatriz sempre sofrera com isso, especialmente tendo certeza de que João, de modo velado, a responsabilizava, ela, uma "mulher seca por dentro", como sua sogra dizia, de quando em quando, de modo tão cruel. A vida entre ambos se arrastava de maneira monocórdia, dia após dia como a rotação da Terra. 

Dias, invernos, primaveras, noites se passavam, enquanto ambos aceitavam tacitamente administrar o papel de casados, sem qualquer emoção ou sentido. Portanto, pouco importava ao marido que ela possuísse algum amante, de quando em quando. Afinal, ela era ainda uma mulher bastante atraente, mas entre ambos se estabelecera um triste pacto de licenciosidade. A questão que abalara João após o telefonema não demandava sentimentos, longe disso.

Durante a vida em comum, ambos haviam amealhado uma considerável carta de bens, entre os quais se incluíam créditos, uma distribuidora de medicamentos, imóveis, ações na bolsa de valores, propriedades. Era impossível, portanto, que ele não se houvesse tocado com a possibilidade de ver sua imagem degradada publicamente ou ainda de ser vítima de chantagem. Afinal, era um empresário famoso, e as relações comerciais não se comoveriam com deslizes eróticos, sempre haveria prejuízos de todas as ordens. Naquela noite decidiu que iria agir. Seu amigo Carlos E. M, em Porto Alegre já havia passado por tal situação. Na mesma noite ligou para Guarulhos e reservou uma passagem somente de ida para o sul. Lá, poderia engendrar um plano. Nos próximos dias, pouco falou com Beatriz, ficando bem mais tempo na rua do que na casa de quase quatrocentos metros quadrados.

Beatriz notou: havia silêncios e reticências quase que palpáveis, que se esvaíam ante a negativa da conversa, ante a esquiva do que falar. Na noite de quarta-feira, quando voltou à casa, após ter inutilmente tentado fazer compras em um shopping qualquer e com uma sensação intuitiva que lhe alertava os sentidos, encontrou um bilhete. " Vou para Porto Alegre encontrar com o Carlos. Devo voltar na semana que vem". Um bilhete seco e definitivo. As roupas que habitualmente João levava quando em viagem, não estavam no armário: dois ternos completos, dois pares de gravata, duas calças, quatro camisas sociais, duas polo, dois pares de sapato, quatro pares de meias. João adorava o número dois e seus múltiplos. Um marido previsível.

Minutos depois, Beatriz descobriu o horário do voo e a companhia aérea. Ligou do celular para João e guardou-o na bolsa. Ainda tinha pelo menos três horas pela frente.

.........................................

Havia muitas pessoas no enterro de João; era quinze de julho e o frio havia invadido São Paulo fazia uma semana. Frio sem garoa, seco. Beatriz era a face do desconsolo: a morte do marido ocorrera justo quando estavam em uma fase tranquila da vida, com uma situação financeira bastante sólida. Os que compareceram ao enterro admiravam intensamente o equilíbrio do casal e o patrimônio que construíram. Infelizmente, a vida era assim, injusta, talvez cruel. João tinha sido atropelado quando atravessava a Rio Branco, duas horas antes da viagem para Porto Alegre. Compareceram muitos, alguns por interesse, outros por estratégia comercial, terceiros ainda porque amigos, esses em menor número.  

Durante a cerimônia, a viúva se aproximou de sua prima  Clara e, abraçando-a, sussurrou-lhe: "Cuidado com o que você faz, e especialmente com o que você diz". Clara empalideceu, enquanto Beatriz se afastava. Algumas pessoas notaram o constrangimento da última, mas não quiseram aproximar-se, menos ainda indagar o que houvera.

Quatro horas depois, Beatriz voltou para casa. Deixou-se relaxar em um dos chaise long da sala por um bom tempo, até que ingressou em um sonho um tanto quanto agitado. Ao acordar, a noite já tomara conta de tudo. Acendeu as luzes, ligou Gotan Project, selecionou Santa Maria del Buen Aire. Foi à cozinha e agradeceu à si mesma por ter dispensado os serviçais, enquanto bebia um pouco de soda com gelo. Quando a voz  de Julieta Venegas invadiu o ambiente, abriu a torneira da ducha elétrica e banhou-se, antes tomando a providência de desligar todos os telefones. Finalmente estava em paz, quase feliz.

..........................................

Quando o telefone soou no apartamento 501 do prédio classe média da avenida Bastian, em Porto Alegre,  Carla desligou o aparelho de som. A ligação era de algum telefone público, pelo chiado característico e pelo ruído inconfundível do trânsito. A empregada estava mais era pensando no dia seguinte, quando iria finalmente se encontrar com o Ribeiro, que a estava rondando desde há muito. "Não, o Dr. Carlos viajou, está em Tupanciretã, tratando de negócios, deve voltar na sexta-feira", disse para a voz masculina. Dada a informação, perguntou quem estava falando, mas, fosse quem fosse, já havia desligado.

..........................................

O celular de Beatriz tocou intensamente, por várias vezes, até que João atendeu. Foi ríspido, não queria conversa. "Já disse que estou no aeroporto!'. Ia desligando quando ela avisou que a sogra tinha sofrido um atropelamento e estava internada no Sírio Libanês. "A mãe foi atropelada?" "E não está nada bem, já estou com ela aqui". Beatriz falava nervosamente, a voz atropelando sílabas. "Inferno!" pensou João. "Está bem, estou indo", foi o que disse. 

Enquanto a voz monocórdia pedia para que "os passageiros do voo WYU 457678 com destino a Porto Alegre e escala em Florianópolis se dirigissem ao portão dois de embarque de voos domésticos", João se encontrava, veloz, na direção do hospital. Prevendo a perda do voo  João jogou sua maleta de executivo no banco traseiro do automóvel.
..........................................
Tudo aconteceu de modo tão lento.... João encontrando-a em frente ao hospital, ela chorando de modo incontrolável, guiando-o para próximo à calçada, ele querendo entrar para saber de sua mãe e, de repente, em um gesto absolutamente casual, meticulosamente calculado, o pé dela cria uma alavanca e o empurra com um gesto de causalidade imperceptível, de tal modo que ele desaba, pesado, em meio ao trânsito da Rua Dona Adma Jafet, para ser colhido por um Gol que trafegava em alta velocidade e que o joga com extrema violência sob a calçada, enquanto desaparece dobrando à direita na Rua Dr. Marco Antonio de Oliveira.  

Beatriz se agacha, põe as mãos nos bolsos do marido, recolhe seu celular, com a mão envolta em um lenço, e entra chorando e aos gritos no Hospital. O marido fora atropelado. Correm médicos, tentam reanimá-lo, trazê-lo à vida, mas nada podem fazer. O afundamento do crânio era evidente e tudo, de repente, se transformara em um mar de sangue. Se João sobrevivesse, diriam dali há tempos para Beatriz, sua vida seria vegetativa, totalmente dependente dela e de seus cuidados.

Parentes e amigos acorrem ao Sírio Libanês. Daí por diante tudo se passaria como em um sonho, até o momento em que Beatriz, finalmente afunda na cama do casal. Antes de mergulhar no sono, olha a maleta de executivo de João e diz: "Amanhã, como cuidei dele, cuidarei de você..."

Contos! Hordas me seguirão


O mundo social, econômico, financeiro, cultural, as religiões, as relações políticas, amorosas, educacionais, o imaterial, a razão e as porcentagens, as virtudes, os vícios, as obrigações, as medicinas, as doenças, os sentidos, os direitos e as obrigações, os signos, a semiótica, a literatura, a imagem em milhões, em bilhões, incontáveis imagens, as palavras, as filosofias e as ciências, a pornografia, os sentimentos, os ressentimentos e as apatias, o desanimo, os crimes, as abluções, o neocortex  a apatia, o desanimo, os aparelhos de repressão, a polícia, os céus, a tecnologia, os meios, as avenidas, as ruas, as vielas, os acessos, as pontes, os mendigos, a sacristia, as cidades, vilas, os governos, o ócio, as cautelas, os jogos, os erotismos, os templos, os templários, as publicações, os livros, os livretos, os transtornos, as hipóteses, os créditos, as redes, os conhecimentos, as escolas, as igrejas, tudo, tudo absolutamente ficou em stand by.

Nasci, mas isso não foi notado, ninguém, a não ser parentes, e desses muitos poucos notaram que eu nasci, para continuar, já tão sem nada a aprender. Há pais, há um mundo a ser descoberto. Um pouco acima, um pouco abaixo, parte dele, ao seu lado, mamar, prazer, frio, desprazer, calor em excesso, ver, olhos, reconhecer. Nasci, e comigo e em mim, tão envolto em mim, mantas e mantas de imprinting cultural, id, ego, superego talvez, desvios, más experiências, bullying, mais tarde, escola mais tarde, humilhações dos pais, da mãe, o pai tão bêbado dizendo filhinho, filhinho, filhinho, os sentidos, paladar, visão, olfato, e talvez por uma certa orientação, esquerda, direita, embaixo, ao lado, diagonal, transversal, e, pronto, os alimentos, a gordura gordura se acumulando junto com a rejeição, ninguém quer, quem orienta, os elevadores, os plásticos, as dores, as tristezas, os ventiladores e as melancolias; não, o mundo não é plano, o mundo não é justo, de repente nos perdemos entre pessoas escusas, contraditórias, más, eu então me tatuei de raiva, de puro ódio, essa é a verdade, que já era mais que adolescente quando me tatuei para me esquecer, e é muito estranho tentar esquecer a própria vida, eu queria e ela me tomou, minha vida de neon, tudo mentira, eu sou uma mentira.

Tenho agora comigo, em minha pele, gravado em mim, no dorso da minha mão, um dragão medieval, e quando movo a minha mão ele também se move e ela nada mais é do que um instrumento, uma ferramenta, meus dedos um display que aciono do modo e da maneira que desejo e que meu neocortex, topo da minha cabeça ordena, requer, necessita, enquanto ele, o dragão aponta sua bocarra de poros e de humores para o meu indicador e daí vem a sua força, o seu fogo destruidor, o seu movimento e a minha raiva, minha incontida raiva virada  em facas, adagas, lâminas, cortes obtusos, cortes perfeitos, giletes restaurando a doutrina que dispara contra o metrô, contra as instituições e risca e rasga e fere, o que mais queriam de mim, pergunto e todos ficam iguais a você, aí, parados e ninguém diz nada, então eu avanço, eu agora sou o dragão, forte, contra os prevaricadores, as prostitutas, os guardiães das delegacias, os velhos que cheiram mal, os mentirosos de profissão, venho eu com a força do fogo, com o corte da lâmina, o fogo que provêm da minha vontade de limpar, clarificar como um jato de sol aquece o limo, como o fogo aquece a manhã; afogará, o fogo do meu dragão, de suas entranhas as mentes preguiçosas, ensimesmadas, cautelosos, anárquicas, tudo e tudo mais que deva ser silenciado o será através do sílex branco, duro e limpo do fogo, e eu serei, como meu corpo é seu mensageiro, homem-dragão mensageiro, santíssima trindade e digam amem amem amem, e a tatuagem meu deus, deus de letras minúsculas e me ajoelharei para louvar, santificada a trindade fogo, terra, pureza, da qual sou apenas e tão-só pastor que uniformiza, que normaliza e normatiza a casta neurose dos homens, filhos todos do dragão, e assim será e por isso e tão-só para isso estou no mundo e quando eu morrer, me for, hordas me seguirão.