quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Contos! Esperança

Estou com a cabeça no mundo, estou vendo quantos quilômetros ainda tem na minha frente até que possa encontrar, entre outras pessoas, aquela que eu amo. Estou rodando há um bom tempo, talvez umas seis horas ou sete, parece que o tempo dilatou de uma tal forma que me tornei apenas um ponto que se move lentamente entre o que fui e o que pretendo ser. O amor me leva, o amor me guia, o amor balança o meu caminho. De quando em quando paro, descanso um pouco, mas sei até onde quero ir, embora não saiba exatamente quando vou chegar. Sou um pixel se movendo lentamente pelo computador, sou um barco meio sem rumo, me guiando pelo sol e pela lua, com um astrolábio que, no mínimo, é imperfeito.

Os ventos que me levam adiante também me obstaculizam o caminho. Eles são assim, muitas vezes contrários ao desejo. Ventos atrapalham, ventos auxiliam, enfim, são apenas naturais.

Eu, não, eu não sou um ser natural, não me sinto assim porque me correm urbanidades pelas veias. Sou absolutamente contraditório. 

Enquanto o vento aponta para uma direção, me comporto como o bombordo de um navio, como uma caliça em meio a uma avenida. Inapropriado, é o que eu sou. Somente o meu amor pode me resgatar, livrar-me de mim mesmo, fazer com que eu me esqueça da minha imagem, das minhas batalhas, das minhas já obtusas memórias.

Desperto em mim mesmo a fuga do meu corpo. Não sou o meu corpo, mais, sou apenas e tão-só desejo, vontade, determinação. Meu amor me guia, mas não apenas; ele me transforma talvez em alguém que eu desconheça na plenitude. O amor me resgata de mim mesmo, me faz crer mais no sol do que na escuridão, mais na justiça que na miséria, mais na luz do que no deserto. Amo o meu amor, o meu amor é minha vida, é tudo o que eu tenho. Sou obscessivo, sou primata, sou intensamente espírito e carne. Comando a mim mesmo dentro de minha loucura e de minha solidão.

Só o amor resgata, só perto dele posso, nem que seja por breves instantes, ser o que realmente penso que sou. Sou uma sombra que caminha infinitamente em torno de meu desejo. Como eu disse, e você sabe, só o amor salva!

Contos! Os movimentos das marés

Tudo já era absolutamente conhecido. Os registros apenas ratificavam o que todos sabiam. No entanto, embora houvesse denúncias suficientes para mover céus e terras, não havia qualquer interesse em fazer com que os céus e/ou as terras se movessem, pois gente demais poderia ser desacomodada, aborrecida, importunada. Imagine, todas afluentes, influentes, com um pedigree inconfundível e com acessos ilimitados poderiam perder dinheiro, outras deixariam para trás prestígio e poder. Tais pessoas fizeram assim, um pacto mental, não escrito e mais do que conveniente de reciprocidade, um pacto comum, invisível, baseado na necessidade mais do que claro da manutenção do que já estava proposto. Enquanto denúncias fossem passíveis de ser acomodadas, procrastinadas, deixadas prá lá, empurradas com a barriga, e os interessados pudessem subornar, cooptar, corromper, chantagear, oferecer gadgets para que ninguém fosse prejudicado, haveria um equilíbrio de interesses que, em princípio dava uma certa impressão de instabilidade, mas que o passar do tempo mostrou que, aplicada a logística adequada, tenderia rapidamente à estabilidade. E de tal forma foi se solidificando que erigiu como normal uma situação na qual se requer um muito de favores e um pouco de argumentos. Enfim, havia um sistema em marcha, baseado unicamente na reciprocidade. Os canalhas aprenderam rapidamente como se exerce, na prática, a solidariedade.

Claro que alguns detalhes sempre necessitam ser constantemente  ajustados. O maior era a crescente rede que se estabelecia entre aqueles que tinham interesse em preservar o silêncio. Algumas poucas ameaças de delação espoucavam aqui e ali, mas nada que uma cota extra de dinheiro não resolvesse. A imprensa – ora, a imprensa! – também estava adubada com algumas influências que permitiam certos empréstimos de última hora e que eram tratados às gargalhadas nos gabinetes, chamados de hot money e pelo carinho fraterno que inflava verbas publicitárias entre algumas empresas, nacionais ou multinacionais, que viam aí um investimento político de longo prazo. A imagem é tudo, batiam palmas os mass media, enquanto o trem se mantinha nos trilhos. O tempo passava, havia um cheiro de felicidade no ar, com grandes quantias de dinheiro circulando livremente para lá e para cá, sem que ninguém se importasse muito, desde que tais dinheiros não vazassem ou extrapolassem as suas fronteiras estritas, cujos limites eram traçados au gabinet.

Um dia um operário foi executado pela polícia, que estava caçando traficantes. No dia seguinte, pessoas indiferentes ao Mercado se reuniram no local onde o proletário morreu, e fizeram uma homenagem. Alguém então subiu num engradado de cerveja e iniciou um discurso de conscientização. Quando a polícia chegou, todos haviam se dispersado. No dia seguinte, como em um planejado stand up, outra manifestação. E outra, um pouco mais além. Até que, de repente, algo começou a ruir. Parecia ser um movimento controlado nas cadências e passos da cidadania nas ruas. Um ideário inteiro parecia regressar de tempos já tão distantes que se custava a crer que alguém, de sã consciência ainda pensasse em libeerdade e apostasse em movimentos e culturas locais. No ponto de ruptura, tais manifestações começaram a ser pautadas pelos jornais, enquanto os mass media passaram  a dizer aos seus inefáveis clientes que seria interessante ligar a imagem institucional do empresariado a uma nova e avassaladora força política que, além de tudo, não poderia mais ser ignorada. A velha prostituta chamada imprensa se encheu de botox e se travestiu de virgem virtuosa a favor das liberdades individuais. Era o que faltava.

Assim como as marés, a  (r)evolução, finalmente, começara.

Contos! Como e quando o mundo terminará

Pois o mundo terminará exatamente quando a sombra de Ash descer sobre a 14ª quadratura do Círculo Metafísico de Metafisto Mefistófoles, Congregação Panóptica fundada pelo Reverendo So Min Yahng Tsé e situada na Planatura Central do Monte Gólgota, na altura de Corrientes tres cuatro ocho, segundo piso, ascensor.

Lá, somente lá, quando se der a curvatura de Orion Poderoso, virá junto com Ash o início do Perímetro Dourado, cuja soma dos lados será conhecido como DOIS P. A cada um dos lados será atribuída uma lavação geral do planeta, de modo que, quando os eventos passarem, somente restarão os justos, os perfeitos, os que rezam, que oram, que se sacrificam, que creem, que se absolutizam de modo total na Mente de Ash e na observação peniana do Grande Mestre Tsé; somente aos mesmos serão destinados os bens, as benesses, as maravilhas ontológicas e poliformas da Grande Congregação Panóptica.

E assim, quando ocorrer a 14ª Quadratura do Círculo Metafísico de Metafisto Mefistófoles a sombra de Ash, o Cinzeiro Misterioso, serão dados a conhecer todos os lados do Perímetro Dourado, a partir da uncentésima hora após a passagem, o empacotamento, a morte, a queda do Santo Homem, e esses lados serão os que estão pregados no quarto, na sala na hora do almoço, e são:

LADO A – A maldição do Supermercado – Todos os supermercados desaparecerão, e com eles os shopping centers, os mercadinhos, as mercancias, as lojas que vendem I POD, I PAD, TVS a plasma, celulares, brocas, quadros de engenharia, e as comidinhas de consumo imediato, como batatinhas, chocolates, junto com a abominação da Coca Cola e da Pepsi Cola e de todos os seus subprodutos, e tudo isso escafeder-se-á da face da terra, e junto com eles todas as lojas de grandes marcas, como a Vuitton, a D & G, as revistas Marie Claire e todos os demais produtos de consumo e de voragem, assim como todos os enfeites e confeitos apreciáveis e tudo será tragado pelo Grande Círculo do Consumo, de modo que cada um será o que é e não haverá qualquer maquiagem a disposição no mercado que também irá à breca. Good bye yellow submarine.

LADO B – A maldição do Mercado de Voláteis – O Grande Inferno desaparecerá com os produtos financeiros, com as Bolsas de Valores, de Nova Iorque até São Paulo, de Istambul até o Japão, da Coréia até Buenos Aires e todo o dinheiro virará pó, e sumirão os fundos de pensão, as garantias imobiliárias, o mercado da bolsa de futuro, as previsões economicas, o Indice Dow Jones, as debentures, os títulos de crédito, a propriedade, as cédulas de crédito industrial e rural, as variações cambiais, as joint ventures, as cisões e as hipotecas, penhores e alienações fiduciárias, e com elas a Organização Muncial do Comércio, as Ligas Camponesas, a micro e a macroeconomia, os cartéis e os carretéis, os títulos negociáveis, as ações ao portador, os fatores de produção, os bens alienáveis, os papéis negociáveis, o valor ouro e tudo o mais se consumirá a partir do que aqui se diz.

LADO C - A maldição da vaidade – Não mais se encontrarão em qualquer lugar os batons, os sorvetes, as lipoaspirações, os bottox, as academias, os fitness, os photoshops, as redes sociais de comunicação, o fausto, o luxo produzido pelo exagero; explodirão todas as Ferraris, Bugattis, e todos os carros com alta tecnologia, assim como a própria tecnologia será posta off road, e também desaparecerão as novas formas de produzir o corpo como se ele fosse uma máquina instável mas bela, as sessões exclusivas de qualquer coisa que imaginemos, as imagens virtuais, as besteiras e os gadgets eletrônicos, os restaurantes perdulários, enfim toda e qualquer forma pela qual possa o ser humano mau, bandido, desprovido de intenso apego à Congregação Panóptica, vir a maquilar sua aparencia de verme centrípeto e consumidor de dejetos materais.

LADO D – A maldição da droga – Todos consumirão, para a glória do Reverendo So Min Yahg Tsé todos os haxixes, cigarros, maconhas, marijuanas, pedra, boletas, crack, lsd, cachaça, uísques, e demais alucinógenos porque é chegada a hora de viajar desta prá melhor, hora de deixar o mundo carnal e apegar-se ao mundo do devir. Todos, crianças, homens, mulheres, cachorros, papagaios, lacraias beberão, cheirarão e injetarão o que lhes for provido e lhes der na telha, na vontade e na tesão para que possam assim apressar sua chegada ao Quinto dos Infernos, à Desolação Eterna, onde compartilharão eternamente do desejo refreado.

LADO E – A maldição do sexo – Os seres humanos, e somente eles, não mais terão relações incestuosas, carnais, advocatícias e sacerdotais. Todos os tarados, proxenetas, prostitutas, miches, produtores de vídeos pornográficos, donos e donas de bordel, de lupanares, os voyeurs, os homossexuais, masculinos e femininos, os heterossexuais masculinos e femininos, os travestis, as ninfetas, todos sofrerão de um desejo, de uma sanha, de uma tesão enlouquecedora, perdida, estranha, mas não terão como concretizar suas vontades porque a maldição do Círculo Metafísico de Metafisto Mefistófoles não permitirá o orgasmo, a carícia que completa, a ereção que sustenta, a masturbação que alivia, e tudo isso viverá na mente de todos, mas a cada vez que quiserem se tocar, acarinhar o outro, cobrí-lo, tocar os seios, as mamas, os mamilos, as zonas erógenas, se lhes virá uma repugnância e um nojo que os levará à exaustão sem nome dos eternamente insatisfeitos.

E quando enfim, na uncentísima hora após a passagem do Santo Homem, e a sombra de Ash, o Cinzeiro Misterioso, se completar, dar-se-a a aparição do Sumo Príncipe, que virá que eu vi apaixonadamente como Peri, virá que eu vi, incrível e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi, tocando o afoxé Filhos de Gandhi, virá que eu vi.
Somente enão teremos a Vinda do Grande Cão. Tocando e dançando A MACARENA