sábado, 23 de fevereiro de 2013

Mundo líquido! Alain Tourraine: Um futuro a reinventar


Crise

Um futuro a reinventar

04 outubro 2010 La Repubblica Rome
Sisse Brimberg & Cotton Coulson/Keenpress/Getty

Na América e na Europa, a crise económica cada vez se assemelha mais a uma crise existencial. Há soluções para construir um outro futuro, nota o sociólogo francês Alain Touraine, mas os políticos não sabem aproveitá-las.



As três crises. Esta fórmula parece artificial, mas não é. Por trás da crise financeira, estalou uma crise monetária e económica que revelou ser uma crise política. E os nossos países europeus mostraram-se incapazes de pensar e de organizar o seu próprio futuro, facto que constitui uma terceira crise.
A primeira, a mais visível, foi a crise financeira que culminou em setembro de 2008 com o fecho do banco Lehman Brothers em Nova Iorque. Esta crise foi mais grave nos EUA e na Grã-Bretanha, mas também na Europa continental. Em contrapartida, depressa outros países se restabeleceram e chegaram mesmo a atingir elevados níveis de crescimento.
Houve quem julgasse a crise acabada e a retoma assegurada, quando, no início de 2010, estalou uma crise, sobretudo europeia, orçamental e económica. Tudo começou com um imprevisto: a Grécia estava à beira da falência. Descobrimos então a gravidade dos nossos males: a enormidade dos défices orçamentais, o rápido crescimento da dívida pública, a incapacidade quase generalizada de fazer descer os elevados números do desemprego.
Esta crise é, acima de tudo, uma crise política. É uma crise que manifesta a impotência dos países europeus em gerir a sua economia, em diminuir a despesa pública, em fazer crescer as receitas fiscais e, sobretudo, em relançar o crescimento sem o qual não haverá qualquer recuperação orçamental.

Um modelo ocidental de conquista e imponente

A terceira crise que assola o ocidente é a ausência de um projeto civilizacional, facto que ainda se compreende menos. Durante séculos, o ocidente europeu concentrou todos os seus recursos nas mãos de uma elite dirigente de monarcas absolutos e, mais tarde, do grande capital.
Conseguiu igualmente conquistar, em poucos séculos, uma grande parte do mundo. Mas este modelo de conquista assenta sobre duas situações perigosas. A primeira é o facto de toda a sociedade estar brutalmente submetida ao poder dos dirigentes. Dos súbditos de sua majestade aos operários fabris e aos colonizados, às mulheres e às crianças, todas as faixas da população ficaram sujeitas a formas de dominação extrema. O modelo ocidental foi, simultânea e indissoluvelmente, um modelo de conquista e um modelo imponente.
A sua outra fraqueza foi ter servido para a formação de nações que estiveram em guerra durante séculos, até que a Europa do século XX se lançou em duas guerras mundiais e numa vaga de regimes totalitários. As lutas entre nações europeias só terminaram com a hegemonia americana e a criação de uma União Europeia assente no enfraquecimento dos Estados. O sistema social europeu foi-se enfraquecendo mais lentamente.

Uma Europa sem projeto de vida

Os povos derrubaram monarcas, os assalariados conquistaram direitos sociais, as colónias libertaram-se, as mulheres conquistaram direitos, mesmo que não tenham conseguido acabar com a desigualdade que as vitima. Mas depois da Belle époque, dos anos de democracia social da segunda metade do século XX, a Europa, libertada dos seus maiores sofrimentos e das suas maiores loucuras, encontra-se sem modelo de desenvolvimento, sem projeto de vida.
São da Europa as grandes vozes que se fizeram ouvir nestes últimos séculos, mas hoje a Europa está silenciosa, vazia, sobretudo por não ter conseguido, até à data, substituir o seu antigo modelo de modernização. Mas isso não é impossível e já conhecemos os grandes temas que deveriam ser prioritários para o próximo século: os ecologistas convenceram-nos a conciliar os direitos da economia com os direitos do ambiente; os movimentos culturais revelaram-nos que não basta conquistar o governo da maioria e que também é preciso respeitar os direitos das minorias.
As mulheres, de uma forma mais privada do que pública, começaram a construir uma sociedade cujo principal objetivo é reconciliar os opostos e privilegiar a integração interior em detrimento da conquista exterior. Estes grandes projetos, no entanto, que deveriam imperiosamente transformar-se em projetos políticos, têm mais apoio da opinião pública do que dos governos.

A impotência política e intelectual: a causa principal da crise

Embora seja possível inventar um futuro, já não temos instrumentos políticos e, sobretudo, intelectuais para sairmos das crises cujas consequências mais negativas temos tentado apenas atenuar. O capital financeiro é o único setor da vida económica que se restabeleceu depressa e bem. Simultaneamente, a desigualdade social continua a aumentar, a economia de produção saiu da Europa e o debate político continua o mesmo em todos os países. Não podemos dizer que a nossa impotência política e intelectual seja uma consequência da crise. Ela é a sua causa principal. Este facto indica claramente onde se encontram as nossas prioridades.
Não existe uma solução para a crise económica sem uma solução para a crise política e cultural. É urgente o restabelecimento político e, sobretudo, o renascimento intelectual e cultural. A Bélgica e a Holanda foram assolados por um populismo chauvinista e xenófobo. A vida política em Itália e em França está arruinada e tem de ser totalmente reconstruída. Perante o papel dominante dos EUA, carecemos da vitória de Barack Obama sobre um partido republicano reacionário e pouco inteligente.
Foram os melhores economistas que nos explicaram a importância primordial das soluções sociais e políticas para ultrapassar a crise económica, mas os políticos dão mostras de ainda não terem entendido. Não podemos continuar a avançar devagarinho, pois nem sequer sabemos se estamos a avançar ou a recuar. Precisamos urgentemente de imaginar, pensar e construir o nosso futuro, afastando a névoa e o silêncio que nos impede de descobrir os instrumentos políticos indispensáveis à construção desse futuro.
Fonte: artigo retirado de

Contemporâneas! Vida de ponteiros



Relógios tem ponteiros, setas que ordenam nossos tempos. Na Idade Média ficavam na Igreja da comunidade e marcavam somente as horas, não os minutos, pois aquelas estavam associadas aos rituais católicos, o que iria mudar drasticamente  quando a revolução industrial começou a se disseminar em vários locais da Europa, com consequências locais e, mais adiante, com repercussões globais, de acordo com as tecnologias disponíveis na época. O tempo passou a ser dedicado, preferencialmente, à produção, além de o lazer ter sido devidamente demonizado (especialmente o lazer do trabalhador, bem entendido). Assim, os ponteiros dos relógios passaram a ditar o ritmo das atividades humanas, embora o ludismo não tenha concordado pacificamente. Por outro lado, foi estabelecido um fluxo de trabalho contínuo, no qual o tempo passou a ser rigorosamente fatiado entre o trabalho, o descanso para o retorno ao trabalho e as férias – quando possíveis. Logo, os ponteiros dos relógios são as flechas que nos dizem o que devemos fazer e quando devemos fazer – compromissos, ordens, especulações, trabalho, lazer, tudo aponta para nós. Mesmo o prazer, se assim quisermos, atende uma estética que nos coordena desde que Ford inventou a linha de produção.
No filme O Exterminador do Futuro 2 (1), T 1000 transforma seu dedo indicador em um punhal mortal que trespassa a cabeça uma de suas vítimas, uma inocente dona de casa. Não deixa de ser curioso que quando buscamos saber as horas, os relógios analógicos apontem contra nossos corpos suas lâminas de ponteiros. Somos uma civilização dura: não faz muito tempo que nos demos conta de que o mundo e seus fenômenos funcionam em rede e que, efetivamente, o todo não pode  ser entendido, a não ser equivocadamente, como a adição de suas partes constituintes. Contudo, apostamos teimosamente no poder lógico da reta, embora saibamos que ela não existe, de per si, na natureza. Retas são invenções humanas, mas não prestamos muita atenção no que o mundo tenta nos mostrar, ocupados que estamos em submetê-lo aos nossos interesses.
Somos especialistas, medimos, tornamos a medir, baseamos nossas vidas em dinheiro, consumo e em volatilidade. Esquecemos, por exemplo, que matérias primas são  igualmente voláteis e, muitas vezes, não renováveis. Por agirmos assim, atendemos a parâmetros que não prestam atenção aos entornos, aos limites, às consequências  Desperdiçamos energia. Vinte por cento da humanidade consome oitenta por cento da energia produzida pelo planeta, mas tratamos de tal assunto como se fossemos assistir a um desfile de Gauthier.
Rompemos cadeias alimentares e ecossistemas e pretendemos que não haja consequências  focamos nossos esforços quanto as concessões de direitos, mas somos muitas vezes precários interpretadores dos deveres. Para obter lucros, tornamos áreas agricultáveis praticamente estéreis à outras espécies, porque estimulamos a monocultura e deixamos de explorar outras culturas voltadas diretamente para a alimentação. Destruímos matas nativas e não as reflorestamos na mesma proporção.  Os exemplos se multiplicam e, assim como os ponteiros dos relógios, apontamos laminas contra nossa maior casa, nosso planeta. Obstinadamente nos aferramos a uma visão menor de mundo, e os modelos políticos igualmente não tem demonstrado capacidade e feedback para lidar com tais problemas, envolvidos que se encontram com suas próprias idiossincrasias. É um mundo sem perguntas, apenas seguidor de modelos. Genericamente o papel de predadores históricos e sociais sempre nos caiu muito bem.
 Se observarmos, contudo, veremos já sinais de que as mudanças começam a trazer resultados práticos; de um certo modo é como se uma nova consciência se tivesse instalando lentamente. A consciência de que não podemos continuar a tratar as situações de modo isolado, nem de que podemos permitir visões parcialistas em termos uma noção do todo que está envolvido. Esses movimentos de rede acontecem especialmente nos países nórdicos, nos quais o nível de qualidade de vida já é bastante evoluído, e a renda per capital é distribuída de forma mais equitativa. Por outro lado, as organizações não governamentais cada vez mais buscam soluções que se dão através de projetos que necessariamente não precisam do capital estatal – e, portanto, da submissão direta ou indireta aos governos dos diversos países. Isso configura um substrato alentador, e permite que tenhamos possibilidades claras de um desenvolvimento auto-sustentável. Assim como os processos de globalização, essas entidades igualmente agem em nível mundial. Alguns exemplos conhecidos são o Greenpeace, o WWF, os Médicos sem Fronteiras, além dos tradicionais, como a Cruz Vermelha e assim por diante. O mesmo movimento socialmente garantidor e ecologicamente marcado ocorre e se multiplica em países que são tradicionalmente poluidores, como os Estados Unidos. A China, contudo, embora seja uma das maiores emissoras de gases poluentes do mundo, tem o escudo do crescimento econômico e um regime político que não permite maiores voos em termos de organizações civis.
De todo modo, se nos acostumamos com as lâminas, talvez estejamos vivendo um momento em que finalmente nos acordamos para a realidade , e ela nos aponta para um futuro incerto e dramático se persistirmos pensando políticas internacionais como se estivéssemos no início do século XVII. Embora tenhamos possibilidade de nos filiarmos ou nos refugiarmos em vários movimentos e ideologias políticas, isso se revela insuficiente. Se os grandes dinossauros ainda permanecem íntegros na economia mundial, temos de aprender a conviver com eles e insistirmos no sentido de melhorar a vida de milhões de pessoas. E isso tem ocorrido através de três eixos principais: uma educação ética, a organização da sociedade civil e instrumentos públicos que cerceiem as possibilidades reais do exercício da estupidez institucional. É para esses três eixos que devemos estender nossas redes de atenção plena.

(1) O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991),  original Terminator 2: Judgment Day é um filme cujo diretor é John Cameron, continuação de The Terminator, de 1984.  O andróide citado é no post é T 1000, que tem a missão de matar John Connor. T 100o é de metal líquido, podendo assumir multivariadas formas.  

Contos! Fácil, muito tranquilo


.38 Revolver Target por gahdjun


Uns dias atrás, andei matando uma pessoa, mas, no fundo, foi um ato de caridade, afinal a criatura tinha completado 90 anos, e, pra ser bem sincero, ninguém sabia o que fazer com ela. Então um parente distante me contratou e eu fui lá e executei a velhota; sim, era uma mulher, daquelas quase carecas, de cabelo bem branco, mas isso é alta bobagem, pois o que interessa – sempre – é o serviço bem feito. E foi, até porque a mesma sofreu muito pouco, bastou gastar uma bala de revolver, dessas de trinta e oito e – zapt! – foi acabado todo o sofrido sofrimento.
Uma semana depois, recebi o pagamento e fiquei feliz, embora mil e trezentos reais não dê pra quase nada. Bom mesmo é matar gente importante, mas o trabalho, aí, muda de figura, pois é preciso muita campana, muito preparo, muita observação e, cá prá nós, nem sempre recompensa. Bom mesmo são esses trabalhinhos fáceis, eventuais, meio free-lancer.
A gente tem pouco estresse, vai lá, faz um servicinho bem feito e pronto – nada melhor do que dormir descansado, sem dever nada a ninguém. É encomendar uma morte boa e fim, o resto… só maravilha.
hILTON

Contos! A pitonisa



O homem, após seu banho ritual, com a preocupação a roer sua alma, finalmente colocou-se em posição para perguntar à Pitonisa. Com gravidade, perguntou, mas não obteve resposta. Ele não acreditou no silêncio, mas o tempo havia terminado e com ele as possibilidades de obter o que desejava. De repente, havia um peso em sua alma, e um coração que se negava a aceitar o que acontecera. O momento já passara, e tudo parecia estar caminhando rápido demais.
Já na estrada que o afastava de Delfos, seus pensamentos não o abandonavam. Afinal, não tinha sido digno de receber uma resposta? Afinal, o que ocorrera, buscando uma alternativa que pudesse aplacar a sua angústia. Quanto tempo, quantos sacrifícios e angústias o acompanhariam até que houvesse uma nova oportunidade ou o Destino encaminhasse o que o levava em turbilhão até Delfos?
A cidade sagrada já estava há pelo menos três horas de distância quando a estrada tornou-se um manto noturno, sem que ele percebesse, absorto que estava em suas inquietações. De súbito um vento congelante alcançou-o e com ele a Morte. Entendeu, por fim, porque a resposta não viera, mas nada poderia fazer, nenhuma alternativa o alcançaria.  Àquela altura, a insensível  Átropos já havia cortado o fio de sua vida.
HILTON BESNOS
Os gregos davam o nome de Pitonisas a todas as mulheres que tinham a profissão de adivinhas, porque o deus da adivinhação, Apolo, era cognominado de Pítio, quer por haver matado a serpente-dragão Píton, quer por ter estabelecido o seu oráculo em Delfos, cidade primitivamente chamada Pito.
A Pitonisa era a sacerdotisa do oráculo de Delfos. Sentada sobre o trípode ou cadeira alta com três pés, acima do abismo hiante de onde brotavam as exalações proféticas; ela divulgava seus oráculos uma vez por ano, no começo da primavera. Mas antes de se sentar na trípode, a Pitonisa se banhava na fonte de Castália, jejuava três dias, mascava folha de loureiro, e com religioso recolhimento, cumpria várias cerimônias. Terminados esses preâmbulos, Apolo prevenia a sua chegada ao Templo que tremia até os alicerces. Então a Pítia era pelos sacerdotes conduzida à trípode. Era sempre em transportes frenéticos que ela desempenhava sua função: dava gritos, uivos e parecia possuída pelo deus. Assim que desvendava o oráculo caía em uma espécie de transe, que algumas vezes durava muitos dias. A princípio existiu uma única Pitonisa, mas com o tempo, o grande número de consultas que eram regularmente feitas, exigiu que se criassem ou que se recrutassem novas Pitonisas. Para atingir a grande honra de ser sacerdotisa, isto é, Pitonisa, era necessário satisfazer algumas condições consideradas essenciais, como ser pura, haver recebido uma educação simples e jamais haver conhecido o luxo, vestindo-se com recato. De preferência as Pitonisas eram recrutadas entre as famílias pobres, porque, acreditavam os gregos que a riqueza era incompatível com a elevada missão da Pitonisa.
No caso, estamos diante não de uma decisão judicial, mas de manifestação de uma pitonisa“.

Contos! Herói


ODA by George Bezhanishvili
Herói
Sou um herói, e isso me basta. Não necessito nem quero ser um super-herói. Sou filho de Deuses, mas igualmente sou humano, e por isso penso que ser um super-herói é um exagero, quase um sacrilégio. O que é ser um super-herói, senão ser um personagem que não pertence a lugar algum? Meus pais são Deuses, meus vícios são humanos, e parte do que sou é herança divina.
Muitos dizem que sou um mito, que não sou real, porque não me concebem dentro da herança que receberam muito depois que eu conhecesse o mundo inferior e superior. Destruíram nossas verdades, mentiram sobre as vestais, e parece que nada que não seja do Triunvirato merece respeito, como se ele próprio não fosse um mito.
De todo modo, Cronos, o Senhor dos Tempos, nos aponta as portas do mundo. É preciso esperar um pouco mais, o suficiente para que retornemos ao coração dos homens e às suas habitações.

Contos! A palavra dita e seguida


NO MUNDO HAVIA QUATRO PADRÕES DE TRIBOS, todas coloridas: as dos amarelos, as dos brancos, as dos vermelhos, as dos negros, de tal modo que elas se distribuíam muito distantes umas das outras, o que justificava um certo espanto quando amarelos encontrassem brancos, brancos encontrassem vermelhos, negros encontrassem brancos, amarelos encontrassem…. e assim por diante.

Como tais encontros não se davam todos os dias, quem encontrava alguém de outra tribo ainda acrescentava algumas características às cores e também às qualidades de umas e outras cores e assim foram surgindo os brancos invasores, os negros estranhos, os amarelos china, os vermelhos índios, e mais algumas cores que eram sempre exóticas: os fúcsia, os verdes escuros, os brancos-gelo, os negros-azulados e assim por diante, de tal modo que, depois de um determinado tempo, as qualidades e as cores se casaram entre si.

Não importava muito se as cores em si e as qualidades associadas às primeiras fossem verdadeiras, desde que os membros de cada uma das tribos pudesse jogar seu gamão ou assistir às lutas de MMA quando quisessem. No entanto, em todas as tribos, independentemente das cores, surgiram, mais cedo ou mais tarde os Predestinados, que eram aqueles que tinham encontrado A Palavra.

A Palavra, dita assim e não dito assim, a palavra, eram completamente diferentes. A Palavra queria dizer mais, conferia mais poder àqueles que eventualmente se aproximavam de quem As Pronunciava. Como era necessário proteger A Palavra, conforme os Predestinados diziam, nada mais sensato do que submeter as demais tribos à Palavra. Os Predestinados sempre foram espertos, umas raposas. Enquanto todos brigavam, discutiam, iam para as guerras e sacrificavam inocentes para proteger A Palavra, os Predestinados simplesmente continuavam Dizendo-A.

No entanto, sabiam os Predestinados, que A Palavra não existia assim, sozinha, então foram buscar histórias reais ou inventadas, comentadas ou acreditadas, e utilizaram o Exemplo e A Palavra para difundir suas idéias. Com isso, logo houve seguidores. Os seguidores levavam a Palavra para as demais tribos, não importando qual a cor que tivessem e quais os costumes que tivessem incorporado. A Palavra devia Ser Dita e Seguida. Nem que fosse a Ferro e Fogo.

Realmente alguns foram literalmente queimados pelos seguidores d'A Palavra. Carbonizados, para ser mais exato.

O interessante é que A Palavra se nutria de palavras pacificadoras: vida, solidariedade, amor, paciência, confraternização, fraternidade, e outras que sempre apontavam para o que de melhor em humanidade as tribos de cores diferentes poderiam produzir. Mesmo assim, matavam, estupravam, incendiavam, guerreavam, sacrificavam, baniam, expulsavam, violentavam, violavam, estupidificavam e emburreciam, segundo os seguidores para consagrar as primeiras.

Os seguidores passaram então, como ocorre diuturnamente a interpretar, a comentar, a refazer o que A Palavra lhes significava. A emenda ficou (bem) pior do que o texto inicial. Os seguidores, com letra minúscula, eram os que mais acreditavam na palavra: lhes dissessem qualquer bobagem ou assunto mais importante, não importava. Somente existia verdade na Palavra.

Uma vez que a Palavra não houvesse assegurado, transmitido, dito explicitamente  explicado, o demais não importava aos seguidores, pois esses simplesmente dividiam o mundo em duas partes: o que era dito pelos Predestinados e pela Palavra correspondia a tudo que estivesse certo, adequado, natural, feito para não ser tocado, imantado, incensado, respeitado, e o que não fosse dito pelos Predestinados e pela Palavra correspondia ao que deveria ser subjugado, pois era ignominioso, infiel, triste, melancólico, falso, mequetrefe, inspirado no erro, na abominação. De certo modo, os seguidores eram os mestres da simplificação, pois ou enalteciam ou decepavam. Simples assim.

Nesses tempos, até as bactérias e as briófitas passaram a se espantar.

Mas, aí, as tribos já tinham maiores contatos, e ficou difícil acreditarem somente em Uma Palavra. A Palavra transformou-se em Palavras, o que, na prática, significou que mais pessoas foram literalmente carbonizadas, houve mais guerras e mais inocentes foram sacrificados. Um belo dia, as Palavras resolveram igualmente brigar entre si, e mais gente continuou morrendo, senão pela Palavra, mas pelo Poder que ela representava.

Até hoje há pessoas que brigam pela Palavra, que se resume, no entanto, a uma só: Arrogância.

Contos! Cinco quadras


Andar cinco quadras para entrar no vácuo, no vazio. Muito distante, como se fosse um oceano, um Himalaia a ser escalado, uma selva a ser desbravada, um tempo a ser consumido, um leque de possibilidades, mas apenas uma certeza. Cinco quadras e muito a ser dito, possivelmente bem mais do que eu gostaria e bem menos do que o necessário; meia quadra já havia sido consumida. Andava lentamente, porque os passos pesavam como chumbo. Temas, assuntos, detalhes, marchas, contramarchas mas, sobretudo, culpa. A tríade de olhos verdes: culpa, responsabilidade e erro. Sempre, todas elas palavras muito densas. 

A culpa, nossa orientadora mor, moedora emérita de nossos sonhos, a culpa é a proteladora do prazer individual, o motivo pelo qual abrimos mão de nossos desejos, por mais eles nos atormentem. Colocar em um mesmo cadinho a culpa, a responsabilidade e o erro e, daí, sorvê-los cuidadosamente, em doses quase homeopáticas mas constantes ao longo de nossa vida é o caminho mais certo para a mortificação.

Essa foi uma das lições que aprendi ao andar cinco quadras. Durante minha vida, que cada vez mais se encontra à disposição do tempo, como um caleidoscópio, nada me pareceu tão evidente. Foi como se um  insight me atingisse; eu, que havia tanto me dedicado à tríade, iria repartir, compartilhar minha descoberta com quem? Quem haveria de sentar-se comigo, de ouvir-me, de prestar atenção ao que eu poderia dizer? Quem teria a inegável paciência de me escutar, entre o meu vício tabagista e os vapores de um vinho cabernet?

(Estranho, nesse momento de angústia, me lembrar do sabor de um cabernet, quase como se estivesse em Quaraí, no rigor do inverno com meu pai, comemorando o resultado de uma charqueada. Me transportei, alma, sentidos, de maneira tão rápida que me pareceu ter ouvido a risada clara de meu pai, junto às discrições de minha mãe, enquanto o vento varria tudo, especialmente as consciências políticas, nos deixando sem assunto mas, de certo modo, felizes. Nesses momentos, nada melhor que um cabernet, o pinhão sendo assado no forno à lenha...)

Faltavam duas quadras. Novamente a tríade me envolveu. Para mim, tinha olhos verdes, olhos que, segundo aprendi, são inconfiáveis, traidores... no entanto, Clarice tinha olhos verdes, e me foi fiel desde que a conheci, mesmo quando soube o que eu deliberadamente tentava ocultar, e em um dezesseis de julho, finalmente cansou, extenuada de minhas tolices.

" Vou partir, e não me verás mais", foi o que disse, e assim foi feito, se foram os olhos que me encantavam, os olhos que desperdicei, o que tinha de melhor e que consegui arrancar de mim mesmo. 

Uma quadra. O vento varria tudo, o frio ficava por ali, condensando o brilho das lâmpadas a vapor, acompanhadas nostalgicamente por alguns vaga-lumes  insetos ordinários, e pelo silêncio. Acho que quando morrer, ingressarei em uma câmara absolutamente silente, até que a loucura plena me arraste. Tenho comigo que morrer é não escutar o algaravio das crianças, o berro do boi, os murmúrios dos amantes, os barulhos do mundo; morrer é ser engolfado pelo silêncio.

Acabaram-se as quadras, as cinco. Bati à porta, e alguém me atendeu, para que eu pudesse contemplar,  em um caixão, em uma mortalha, os olhos castanhos de minha filha que me esperavam, mortos, translúcidos, olhos de peixe, sem esperança. Quando entrei, algo deixou de existir. Desolado, suando a transpiração úmida da escuridão, entrei. "Escute!", pensei mas não disse "Alguém gritou algo na rua!", mas não entendi o que havia sido gritado. Parei um pouco dentro da casa, meus pés já haviam abandonado completamente a velha soleira. Quando dei por conta, o mundo sumiu.